Foto: Difusão
O momento também registrou aumento de mais de 55% nos pedidos de medida protetiva de urgência
De agosto de 2024 a agosto de 2025, a Delegacia de Jaguariúna registrou 484 boletins de ocorrência de crimes contra mulheres. As informações foram mostrados através da presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Amanda Guidetti, durante as atividades do Agosto Lilás, mês de conscientização nacional sobre a violência contra a mulher.
Para ela, os números refletem mais do que estatísticas: mostram a urgência em romper o ciclo de violência que aprisiona muitas vítimas em relacionamentos abusivos. Entre os crimes , estão 174 denúncias de ameaça, 193 contra a honra (injúria, calúnia e difamação), 59 de machucado corporal, 14 de importunação sexual, 15 descumprimentos de medida protetiva, além de quatro estupros consumados, um tentado, um feminicídio consumado e outro tentado.
Em Jaguariúna, o Agosto Lilás contou com uma programação diversificada de atividades promovidas através da Prefeitura, em cooperação com o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. No espaço do mês, foram feitas palestras, rodas de conversa, encontros nos quatro Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), reuniões do Conselho e mobilizações em redes sociais. A proposta foi descentralizar o debate e trazer informação diretamente às comunidades, alcançando mulheres que muitas vezes não têm acesso a esse tipo de conteúdo.
Os encontros abordaram temas como a Lei Maria da Penha, medidas protetivas, formas de reconhecer e denunciar a violência, além da importância do acompanhamento psicológico e jurídico para as vítimas. Amanda reforçou que a estratégia foi justamente ampliar o alcance das ações, para que o povo compreenda o ciclo da violência e saiba como agir diante de situações de risco. “Falar só para quem já tinha acesso não era suficiente. O objetivo foi levar informação onde ela ainda não chegava, alcançando mulheres em situação de maior vulnerabilidade”, destacou.
Foto: Thiago Carvalho
O ciclo da violência: agressão, desculpas e repetição
Segundo Amanda, o ciclo geralmente começa com a violência psicológica ou verbal, avança para agressões físicas e pode terminar em feminicídio. “O agressor agride, depois pede desculpas, faz promessas, se mostra arrependido e amoroso. A vítima, fragilizada financeiramente, emocionalmente ou psicologicamente, acaba cedendo. O problema é que, com o tempo, os intervalos entre as fases ficam cada vez menores e as agressões, mais graves”, explica.
Esse padrão, segundo ela, explica por que muitas vítimas acabam voltando para o agressor. “Não significa que a mulher esteja de brincadeira, como muitos pensam. Significa que ela está vulnerável e sem apoio. Sem suporte jurídico, emocional e financeiro, a tendência é que ela se mantenha no relacionamento abusivo”, afirma.
Medidas protetivas em alta
Outro dado importante apresentado por Amanda é o crescimento das medidas protetivas de urgência solicitadas: foram 146 em 2020/2021, contra 228 em 2024/2025, um aumento de mais de 55% em 4 anos.
Para ela, esse avanço não indica necessariamente aumento da violência, mas maior confiança das mulheres em buscar ajuda. “A violência sempre existiu. O que vemos agora é que mais casos estão deixando a sombra da subnotificação. Muitas vítimas antes não procuravam ajuda, hoje estão denunciando”, avalia.
Desafios, preconceitos e rede de apoio em Jaguariúna
Amanda também chamou atenção para os discursos que enfraquecem o enfrentamento à violência. “Frases como ‘a lei não funciona’ ou ‘a vítima voltou porque quis’ desestimulam denúncias e deslegitimam a dor das mulheres. É preciso desconstruir essa linguagem, porque ela descredibiliza tanto as vítimas quanto os profissionais que atuam no atendimento”, falou.
Durante uma das rodas de conversa do Agosto Lilás, o Conselho distribuiu plaquinhas com frases ofensivas ou depreciativas ouvidas por mulheres em situação de violência. “Foi muito impactante, porque muitas participantes reconheceram que já tinham escutado aquilo. Ali mostramos que não é algo isolado”, destacou Amanda.
Apesar do cenário preocupante, Jaguariúna tem estruturado uma rede de apoio. O município conta com o Setor de Proteção à Mulher na delegacia, criado em 2017, a Casa da Mulher (com atendimento psicológico e de saúde), além da atuação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, instituído em 2022. Em 2025, o município também sancionou a Lei nº 3.033/2025, promovida através da Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal, que estima atividades educativas sobre a Lei Maria da Penha nas escolas municipais.
A Guarda Municipal retomou, também a pedido da Procuradoria da Mulherl, a Patrulha Maria da Penha, que tem especialização no atendimento a ocorrências envolvendo mulheres e voltada ao acompanhamento e proteção das vítimas com medidas protetivas.
As vítimas também podem denunciar e buscar apoio em diferentes canais:
● Disque 180 – Central de Atendimento à Mulher, 24h, sem custo e sigiloso;
● 190 – Polícia Militar;
● 153 – Guarda Municipal;
● Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) – Nassif, Centro, Cruzeiro do Sul e Florianópolis;
● Casa da Mulher e UBSs, que podem direcionar os casos para a rede de proteção;
● Setor de Proteção à Mulher na Delegacia de Jaguariúna.


