Acontecimento juntou representantes da advocacia e da população para refletir sobre racismo religioso, desinformação e o respeito à diversidade de crenças
A sede da OAB de Jaguariúna foi palco, na última quarta-feira, 19 de novembro, de uma palestra com o tema “Intolerância religiosa e defesa da liberdade de crença”, ministrada através do babalorixá Getúlio Troiano Filho. O encontro foi feito sob a condução da presidente interina da subseção local da OAB, Dra. Vânia dos Santos Silva, e teve como objetivo ampliar o debate sobre discriminação religiosa e promover o respeito à liberdade de fé.
Durante a abertura do acontecimento, a Dra. Vânia destacou a relevância do tema para a sociedade brasileira. Segundo ela, a intolerância religiosa é uma das formas mais preocupantes de preconceito atualmente.
“Vivemos em um país de grande diversidade de crença religiosa. Existem aqueles que creem e também os que não creem, e todos merecem respeito. A intolerância vem se agravando — antes restrita às redes sociais, agora parte para agressões físicas. A OAB tem papel fundamental nesse processo, ao abrir espaço para o diálogo e o esclarecimento”, afirmou ao jornal O Regional.
Ela ressaltou ainda que o preconceito atinge inclusive religiões de matriz africana, muitas vezes atacadas por falta de informação. “As pessoas precisam entender que se trata de uma crença legítima, nascida na resistência à escravidão e amparada pela Constituição Federal. O caminho para uma sociedade mais justa é o conhecimento, é necessário saber antes de julgar”, pontuou.
No centro da palestra, Getúlio Troiano Filho abordou as origens históricas e estruturais da intolerância, que ele define como parte de um “coquetel” que inclui racismo, xenofobia, preconceito e discurso de ódio. Segundo ele, a falta de informação sobre religiões afro-brasileiras é o maior obstáculo à sua aceitação.
“Há um preconceito velado que vem de muito tempo. A demonização das religiões de matriz africana é resultado da ignorância e da herança da escravidão. Um exemplo claro disso é a figura de Exu, equivocadamente associada ao mal por uma tradução malfeita na primeira bíblia em iorubá. Na nossa tradição, Exu representa o equilíbrio entre forças”, explicou.
O palestrante também denunciou o não cumprimento da Lei nº 10.639/2003, que determina o ensino da história e cultura africana nas escolas. “Essa lei simplesmente não é cumprida em muitos municípios. Já fui palestrar em uma escola onde professores e alunos evangélicos foram retirados do auditório. Sem acesso à informação, não há como construir respeito nem diálogo inter-religioso”, afirmou.
Para Getúlio, o enfrentamento à intolerância exige ações de longo período, como campanhas públicas de conscientização, com linguagem acessível, que ajudem a desconstruir mitos e desenvolver o respeito. “A religião de matriz africana precisa ser apresentada com sua verdadeira identidade, sem estigmas. O caminho para o respeito é a informação”, completou.
Biografia do palestrante
Getúlio Troiano Filho é babalorixá e sacerdote do culto tradicional iorubá, à frente do templo Casa dos Orixás Ile Asé Exu Ebará Jaguarybi. Sua formação em Umbanda foi consolidada através da Federação Umbandista Caminho dos Orixás e aprofundada por ritos iniciáticos na Nigéria. Acadêmico, é bacharel em Ciências Sociais, tem MBA em Marketing através da FGV e em Finanças e Controladoria através da USP. Atualmente, age como diretor superintendente da COAB Bandeirante e é professor convidado em cursos de MBA.
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